Por que escolher parece mais difícil para mulheres?
Ana Mansur
Muitas mulheres chegam à psicoterapia se perguntando por que decidir pesa tanto. Não se trata apenas de indecisão ou insegurança pessoal. Existe algo mais amplo em jogo.
Escolher, para mulheres, raramente é apenas escolher. É lidar com expectativas, cobranças e consequências que não se distribuem de forma neutra.
Entender isso não elimina a responsabilidade pelas escolhas, mas muda profundamente a forma de se relacionar com elas.
Escolhas não são feitas no vazio
Nenhuma escolha acontece fora de um contexto. Toda decisão é atravessada por condições concretas, histórias pessoais e expectativas sociais.
No caso das mulheres, essas expectativas costumam ser mais numerosas e mais contraditórias. Espera-se autonomia, mas também cuidado. Independência, mas disponibilidade. Desejo próprio, mas adaptação.
Essas exigências não aparecem sempre de forma explícita. Muitas vezes, elas são incorporadas como se fossem naturais.
A culpa como companheira frequente
Um efeito comum desses atravessamentos é a culpa. Culpa por escolher diferente do esperado. Culpa por priorizar a si mesma. Culpa por não dar conta de tudo ao mesmo tempo.
Essa culpa não surge porque a escolha é errada, mas porque ela rompe, ainda que minimamente, com papéis aprendidos ao longo da vida.
Quando a culpa entra em cena, decidir se torna mais pesado. Não porque falte clareza, mas porque o custo emocional parece alto demais.
O peso de sustentar as consequências
Para muitas mulheres, escolher envolve também sustentar consequências que recaem quase exclusivamente sobre elas. No trabalho, na maternidade, nas relações afetivas, na vida cotidiana.
Isso faz com que a decisão não seja pensada apenas a partir do desejo, mas também do impacto que terá sobre os outros. Escolher passa a ser, muitas vezes, escolher quem será frustrado.
Esse cálculo constante desgasta e contribui para a paralisia.
Quando a dificuldade não é individual
É comum que mulheres interpretem essa dificuldade como falha pessoal. Como se faltasse coragem, firmeza ou clareza.
Mas nem toda dificuldade de escolher é individual. Muitas vezes, ela é efeito de uma organização social que exige das mulheres conciliar demandas incompatíveis entre si.
Nomear isso não é buscar desculpas, mas compreender o campo em que as escolhas são feitas.
Responsabilidade sem autoacusação
Reconhecer os atravessamentos não significa abrir mão da responsabilidade pelas próprias escolhas. Significa exercê-la de forma mais justa.
Responsabilizar-se não é se acusar por tudo. É escolher considerando limites reais, condições concretas e possibilidades possíveis, não ideais inalcançáveis.
Esse deslocamento reduz a culpa e permite escolhas mais sustentáveis no tempo.
A psicoterapia como espaço de contextualização
A psicoterapia pode ser um espaço para olhar para as escolhas levando em conta não apenas o indivíduo, mas o contexto em que ele vive. Um lugar para diferenciar o que é exigência externa do que faz sentido sustentar.
Ao nomear os atravessamentos, a mulher deixa de se ver apenas como alguém que falha e passa a se reconhecer como alguém que escolhe em condições específicas.
Isso não simplifica a escolha, mas a torna mais honesta.