Quando adiar uma decisão também é uma escolha
Ana Mansur
Nem sempre a dificuldade está em escolher entre duas opções. Muitas vezes, o impasse aparece na tentativa de não escolher nada.
Adiar uma decisão costuma parecer prudente. Dá a sensação de ganhar tempo, de evitar erros, de esperar por mais clareza. Mas, na prática, o adiamento prolongado raramente é neutro.
Mesmo sem decidir, algo já está sendo sustentado.
O adiamento como estratégia
Adiar pode funcionar, por um tempo, como forma de proteção. Enquanto não se decide, evita-se o risco, a frustração e a responsabilidade que acompanham qualquer escolha.
Esse movimento não é sinal de fraqueza. Muitas mulheres recorrem ao adiamento justamente por levarem suas decisões a sério. O problema surge quando o adiamento deixa de ser uma pausa consciente e se transforma em modo de funcionamento.
Quando isso acontece, a escolha não desaparece. Ela apenas se desloca.
A ilusão de que esperar trará certeza
Uma fantasia comum é a de que, com tempo suficiente, a decisão certa se tornará evidente. Como se, em algum momento, surgisse um sinal claro, uma segurança plena ou uma garantia de que nada dará errado.
Na vida concreta, isso raramente acontece.
O tempo pode ajudar a elaborar, mas também pode reforçar o medo, a ambivalência e a dependência de garantias que não existem. Esperar indefinidamente costuma manter a angústia ativa, não resolvê-la.
O custo invisível de não decidir
Quando uma decisão é adiada por muito tempo, ela começa a cobrar um preço silencioso. Energia psíquica é gasta sustentando a indecisão. A atenção fica fragmentada. O pensamento gira em torno do que poderia ser, mas não é.
Esse custo aparece como:
cansaço constante
irritação sem causa clara
sensação de estar presa
dificuldade de se comprometer com o presente
Mesmo sem escolher, a vida segue produzindo efeitos. E esses efeitos também são consequência de uma escolha.
Manter tudo aberto também é uma posição
Não decidir é, muitas vezes, uma forma de tentar manter todas as possibilidades abertas. Mas viver sem se comprometer com nada pode gerar uma sensação contínua de suspensão.
Ao evitar fechar uma porta, deixa-se de entrar em qualquer lugar. O medo de perder algo impede o ganho de experiência, de aprendizado e de construção.
Escolher implica perder. Não escolher também.
Entre responsabilidade e culpa
Um dos motivos mais frequentes para o adiamento é a confusão entre responsabilidade e culpa. Escolher passa a ser vivido como assumir um erro antecipado, como se qualquer decisão fosse uma falha em potencial.
Quando responsabilidade é confundida com exigência de perfeição, a escolha se torna pesada demais. O adiamento surge como tentativa de aliviar esse peso.
Mas assumir responsabilidade não significa garantir resultados. Significa apenas reconhecer que nenhuma escolha vem sem consequências.
Decidir não elimina a dúvida
Há uma expectativa de que decidir trará alívio imediato. Que a dúvida desaparecerá e a angústia se dissolverá. Na prática, muitas decisões continuam sendo acompanhadas de ambivalência.
Decidir não é eliminar a dúvida, mas escolher apesar dela. É aceitar que parte da incerteza faz parte do processo e que a vida não se organiza a partir de garantias absolutas.
A psicoterapia como espaço para pensar o adiamento
A psicoterapia pode ser um espaço para compreender o que está sendo evitado quando uma decisão é adiada. Um lugar para olhar para os medos envolvidos, para as fantasias de controle e para as perdas que estão sendo temidas.
Nem sempre o trabalho é acelerar a decisão. Muitas vezes, é torná-la mais consciente. Reconhecer que adiar também é escolher já desloca a relação com a própria responsabilidade.
Escolher não é ter certeza. É sustentar uma posição possível no tempo real da vida.