Viver no automático: quando a vida segue, mas você não acompanha
Ana Mansur
Muitas mulheres descrevem a sensação de que a vida está andando, os dias estão passando, as tarefas estão sendo cumpridas, mas algo nelas ficou para trás.
Nada exatamente parou. Nada exatamente explodiu. Ainda assim, existe uma distância difícil de explicar entre quem vive e a vida que está sendo vivida.
Essa experiência costuma aparecer como uma frase simples:
“Estou vivendo no automático.”
O que significa viver no automático
Viver no automático não é sinônimo de preguiça, desatenção ou falta de responsabilidade. Pelo contrário. Muitas vezes, é justamente quem dá conta de tudo que se percebe mais distante de si mesma.
A rotina segue organizada por compromissos, demandas e expectativas. As decisões vão sendo tomadas com base no que é necessário, esperado ou mais fácil de sustentar naquele momento.
O problema é que, aos poucos, a própria presença vai se diluindo.
Quando a vida vira uma sequência de obrigações
No automático, os dias se parecem. As escolhas deixam de ser escolhas e passam a ser respostas. Respostas ao trabalho, à família, às exigências externas, às urgências do cotidiano.
Não há tempo para parar. E, quando há, surge um incômodo difícil de nomear. Um vazio. Um cansaço que não se resolve com descanso.
Esse modo de funcionamento costuma se sustentar por muito tempo, até que algo começa a pesar demais.
“Não sei mais o que eu quero”
Uma consequência comum de viver no automático é a dificuldade de acessar os próprios desejos. Quando tudo é organizado a partir do que precisa ser feito, sobra pouco espaço para perguntar o que faz sentido.
Muitas mulheres dizem não saber mais o que querem. Não porque perderam a capacidade de desejar, mas porque passaram tempo demais atendendo demandas que não partiram delas.
O automático protege, mas também anestesia.
Um distanciamento que acontece aos poucos
Raramente alguém acorda um dia e percebe que está vivendo no automático. Isso acontece aos poucos, de forma silenciosa.
Primeiro vem o cansaço. Depois, a irritação constante ou a apatia. Em seguida, a sensação de que algo está faltando, mesmo sem saber o quê.
Quando esse distanciamento não é olhado, ele tende a se aprofundar. A vida segue funcionando, mas o sentido vai se perdendo.
Não é falta de força, é excesso de adaptação
É comum que mulheres interpretem esse estado como fraqueza pessoal. Como se o problema fosse não estar dando conta ou não ser suficientemente resiliente.
Mas, muitas vezes, viver no automático é resultado de um excesso de adaptação. A uma rotina que não foi pensada com cuidado. A expectativas que não foram escolhidas. A caminhos que foram sendo seguidos sem espaço para revisão.
O automático surge como estratégia de sobrevivência, não como falha.
A importância de interromper o automático
Interromper o automático não significa largar tudo ou fazer mudanças radicais. Significa, antes de tudo, criar espaço para perceber o que está sendo vivido.
Perguntas simples podem abrir brechas importantes:
O que eu tenho sustentado sem me dar conta?
O que já não faz mais sentido manter desse jeito?
O que em mim está pedindo atenção?
Essas perguntas não trazem respostas imediatas, mas ajudam a recuperar presença.
A psicoterapia como espaço de retomada
A psicoterapia pode ser um lugar para sair do automático com cuidado. Um espaço para desacelerar o pensamento, nomear o cansaço e compreender como a vida foi sendo organizada até aqui.
Não se trata de buscar uma versão ideal de si mesma, mas de se aproximar da própria experiência, com mais honestidade e menos exigência.
Às vezes, o primeiro passo não é mudar a vida, mas voltar a habitá-la.